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quarta-feira, 25 de março de 2015

Os passos



Naquela noite, quando Zidanta ouviu os passos, soube que era o Grande Ceifeiro que já o procurava. Sempre acreditara que viria assim, furtivo e impiedoso; só não sabia quando.

Zidanta, o Grande Rei dos Hititas, o favorito do deus Tarhun, estava velho. Já não podia encabeçar o temível exército de carros e ir ao Sul submeter um príncipe sírio ou fazer recuar os Hurritas no Médio Eufrates. Já raramente visitava alguma das suas rainhas. Mantinha-se no seu palácio de Hattusa, recebia comissões de comerciantes assírios, que queriam negociar no seu reino, ou embaixadas de alguma pequena corte, a reiterar submissão e a pedir proteção contra inimigos regionais. Nesses dias, sentava-se junto a uma janela, assistia à entrada das comitivas pela colossal Porta dos Leões e, depois, assumindo uma postura grave e reservada, esperava-as na sala do trono, ladeado pelo Grande Escriba e seus funcionários.

Os passos, já! O velho guerreiro estava reclinado na sua câmara de dormir, amodorrado, mas de ouvido alerta, quando os ouviu. Eram suaves e furtivos. Mesmo pouco audíveis, Zidanta percebeu-os, por entre os outros ruídos de passos da Guarda, que, pausadamente, fazia a ronda noturna à volta dos aposentos reais. Só um inimigo se deslocaria assim.

Num relance, recordou a curta história do seu reino, onde os soberanos acabavam, muitas vezes, por sucumbir a revoltas, traições e golpes palacianos, que não poupavam sequer o resto da família. Fora assim com o rei Mursili, seu tio, massacrado por si e pelo próprio cunhado Hantili, seu sogro, o qual também veio a ter a mesma sorte: após vários anos de reinado, morreu às suas mãos, juntamente com o filho, netos e todos os que podiam ter pretensões ao trono.

Teria chegado a sua vez? Apurou o ouvido; os passos eram um roçagar ténue, de origem incerta, escassos e dissimulados. Pareciam os de um só homem. Estaria dentro da câmara? Manteve-se imóvel, mas de olhos semicerrados, tentando enxergar alguma sombra que se movesse na obscuridade do aposento. Pareceu-lhe notar uma alteração de luminosidade numa coluna junto ao altar do Deus da Tempestade. Dirigiu um apelo mudo à divindade para que o livrasse desta provação, como o tinha salvado de tantos outros perigos que vencera ao longo dos anos.

Não queria mover-se, para manter o agressor na ilusão de o poder apanhar desprevenido. Gritar pela Guarda podia não lhe trazer uma ajuda tão rápida como precisava para salvar a vida; decidiu que se defenderia sozinho. Zidanta tinha sempre uma acha de bronze à mão. Quando o atacante se aproximasse, iria ter uma surpresa. Começou a fazer deslizar o braço direito sobre os panos, lenta e impercetivelmente, na direção do tamborete junto ao leito, enquanto tentava adivinhar quem seria o agressor.

Conhecia bem o seu povo e os membros da sua corte. Qual poderia querê-lo morto? Talvez o seu cunhado, Huzziya, sempre cheio de mesuras, mas que não conseguia esconder uma certa perfídia no olhar. Criticava veladamente o atual estado do país, onde os Gasgas das montanhas junto ao Mar Negro se estendiam para Sul e ocupavam florestas e pastagens, e os Hurritas, a Sudeste, já se permitiam fazer incursões no país e tomar cidades.

Talvez Zuru, o chefe da Guarda, esse guerreiro do país de Mitani, que procurara refúgio entre os Hititas. Aparentemente leal, tornara-se um militar imune às querelas internas do exército hitita, por não ter ligações de raça com os outros oficiais. Nunca hesitava perante uma ordem, mas o estado de inquietude do exército, devido à ausência de campanhas, talvez o tornasse vulnerável a intrigas. Ultimamente, vislumbrara-lhe uma ou outra crispação no rosto barbudo.

Seria Neferhotep, a egípcia rainha segunda, que nunca aceitara a posição secundária do seu filho na linha de sucessão? Se assim fosse, iria eliminar também os dois filhos da rainha primeira.

Os passos macios aproximavam-se. Sentiu-os mais perto. Agora, estava certo de que alguém se introduzira na câmara real. Era tempo de agir. A sua mão alcançou o tamborete, tateou, mas nada encontrou. A lâmina de duplo gume não estava onde a tinha posto. Uma onda gelada percorreu-lhe o corpo. O seu coração acelerou e batia ruidosamente, abafando o som dos passos. Teve de fazer um esforço de disciplina para não ofegar, nem se agitar, o que poderia desencadear o ataque do intruso. Percebeu uma sombra acocorada no chão, a uns três passos de distância. Soube então de onde vinha a ameaça. Tinha de aproveitar essa pequena vantagem.

Num só movimento de animal acossado, rodou o corpo para a esquerda, meteu a mão sob a almofada, empunhou a adaga, que sempre o acompanhava e, de um salto, abateu-se sobre o vulto, cravando-lhe a ponta da lâmina com quanta força tinha. Bradou então pela Guarda. Dez homens entraram de rompante na câmara real. À luz dos archotes que alguns empunhavam, os guardas depararam com um rei lívido a olhar incrédulo para a tartaruga do palácio, que exibia uma adaga espetada no alto da carapaça.

Na noite seguinte, cansado e humilhado, Zidanta deitou-se cedo. Prestes a adormecer, ainda vislumbrou um brilho fugaz na lâmina do machado, empunhado pelo seu filho Ammuna, quando se abateu sobre si a zunir e o decapitou. No meio da névoa de dor e assombro que o envolveu, num último lampejo de consciência, admirou-se de não ter ouvido passo algum.

Joaquim Bispo

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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77

 
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(Este conto, sob o título O Intruso, foi publicado no número 33 da revista virtual Samizdat, de maio de 2012)

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2 comentários:

Fantástica história. Um suspense muito bem construído e um final inesperado. Adorei lê-lo. Apetecia ler mais, soube a pouco, embora tenha consciência de que não se tratava de um romance. Muitos parabéns. Para quando um livro com todos os teus escritos? Um abraço

Obrigado, Portugal. Sabe bem sentir entusiasmo em quem lê.
Publicar em papel é bem mais complicado. Mantenho-me no virtual a divulgar os meus textos por muitas centenas de potenciais leitores. Abraço!

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