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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O equilíbrio que noutrem abunda

Existe algo que sempre me causou inveja e despeito: o equilíbrio alheio, enquanto outro algo me impinge raiva e autocomiseração: o desequilíbrio próprio.

Não estou falando aqui daquele controle, serenidade e moderação no campo das ideias e do diálogo. Esse tipo de discrição até que me faz companhia com certa frequência. Falta-me sempre, dia a dia — negando-me a brisa da graça até em momentos primordiais —, é o domínio corporal. Não me sustento na corda bamba nem se ela estiver apoiada ao solo! Sou frouxa desde a infância, quando vovó insistia em me chamar de Pamonha.

Minha vizinha Ester é exemplo de firmeza. Impressionante vê-la levar consigo, sozinha, os três filhos pequenos. Ela não vai de carro, não; mas de ônibus pleno, locomovendo-se com desenvoltura a qualquer hora do dia ou da noite. Os destinos são variados: da Ceilândia Sul à Rodoviária do Plano Piloto, da W3-Sul à Comercial Norte de Taguatinga, de Águas Lindas até o Gama... Coisa mais linda ela passando, desconstrangida, pela roleta da Linha 311.3: Eduardinho, ainda de colo, vai seguro ao peito; Aninha, atada à mão direita; Rianzinho, pregado à mão esquerda.

Ester e as crianças nunca se abalam com as freadas bruscas nem se desesperam quando inexistem assentos, espaldares ou barras livres para apoio. Já nasceram acostumados às ríspidas trocas de marcha, quebra-molas e freadas abruptas. É de encher os olhos o movimento harmônico da Dona Polva e seus polvinhos que deslizam ilesos pelo mar de seres espremidos na carcaça de levar e trazer! Ester consegue, sem cair: pagar a passagem ao cobrador, guardar o troco na bolsa, desvencilhar-se dos anônimos que se amontoam nos corredores, carregar a bolsa com fraldas e agasalhos das crianças, contê-las durante toda a viagem e descer na parada certa, sem esquecer nenhum filhote pra trás.

O movimento espontâneo dentro de um ônibus é digno de aplauso! Rendo-me a essas criaturas, como Ester, que simplesmente vão e vêm nas conduções lotadas, sem necessidade de escora, guincho ou reboque.

Ao contrário de Ester e de outros humanos providos de estabilidade corporal, eu não ouso carregar livros, bolsas, sacolas — nem muito menos filhos — quando ando de ônibus ou metrô. Preciso de membros sempre desocupados, disponíveis a se agarrar rapidamente a uma haste, braço de cadeira ou cintura mais próxima. Depois que passo pela roleta, peço uma acomodação digna à Nossa Senhora do Banco Vazio. Caso a Mãe não possa me atender de imediato, vou andando na insegurança, de solavanco em solavanco, na tentativa de me estabilizar de alguma forma. As oscilações se sucedem, uma queda é iminente! Ir ao trabalho de ônibus é perigo diário de morte pra mim!

Acha que é exagero de minha parte? É porque você não me conhece. Uma vez, eu levava minha primogênita no colo num ônibus de Recife. Ela tinha dois aninhos na época. O marido já estava lá no fundo do ônibus, com o carrinho do bebê. Quando me vi ali desamparada, depois de atravessar a roleta, tendo de desbravar, com a criança nos braços, interminável caminho dentro do transporte urbano, desatei a gritar: “Socorro. Eu não consigo”. O digníssimo teve de voltar e resgatar a pequena, sob olhares incrédulos e sorrisinhos disfarçados de muitos passageiros. Com presepadas desse quilate, a coragem só vai minguando, né? Espatifar-me literalmente no chão foi só uma vez, mas o quase se repete bastante.

Falei muito do autodomínio num coletivo. Mas também admiro (invejo feio) quem sabe andar de magrela, sobe e desce ladeira carregando balde na cabeça, faz estrelinha, anda elegante de sapato alto, dá cambalhota, roda pirueta, desfila de perna-de-pau, realiza todos os movimentos na aula de pilates, marca gol de bicicleta, escala montanha, namora animado em rede estreita...

O que dizer dos ginastas artísticos que dançam nas barras, executam com perfeição os encarpados e os mortais ou saltam sobre o cavalo? São deuses da força e do equilíbrio, a quem certamente devo me curvar!

Medalha de ouro aos abençoados que abundam em equilíbrio! E algum consolo, sabedoria e proteção para quem — assim como eu — precisa muito se aprumar nessa pamonha de vida.


Maria Amélia Elói


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4 comentários:

Muito legal, eu também quando criança era chamada de pamonha mas o problema não era o equilíbrio, este eu tinha, era porque eu era songa monga, pateta mesmo, e ainda sou, um pouco, mas me aceito assim e sou feliz. Beijo Maria Amélia e parabéns

Ai, sei bem do que está falando, também sempre sofri desses desequilíbrios em ônibus, bicicletas, pontes improvisadas com pedaços de madeira para atravessar riachos e por aí vai. Rs! Ô texto gostoso de se ler, sô! Que prazerzin bão pra logo cedo. Parabéns, Maria Amélia!

Que delícia de texto! Apenas a literatura para transformar minha sina cotidiana em uma crônica gostosa, boa de saborear! Leio e rio! Leio e rio! Maravilha! Obrigado!

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