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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Fantasma da Promessa

Henry Alfred Bugalho

Foi uma reportagem do El País que me apresentou a Marina Keegan, uma escritora americana que morreu aos 23 anos. Era considerada uma promessa, "brilhante" segundo seus professores de Escrita Criativa em Yale.

Procurei o livro dela e dei uma folheada. Há um frescor inusitado para alguém que estuda para ser escritora. Tenho lido uma infinidade de contos produzidos nestes cursos, que são quase um pré-requisito para qualquer americano com pretensão a literato; todos se parecem, o mesmo tom, os mesmos temas, a aversão extrema à voz passiva, o uso formulaico de advérbios e adjetivos para evocar "todos os cinco sentidos". Contos longos e tediosos que se prolongam por uma vintena de páginas. Contos para tentarem publicar em The New Yorker ou na Paris Review.

É certo que se pode ensinar a escrever, mas pode-se ensinar alguém a ser escritor?
Tenho as minhas dúvidas.

Corri os olhos pelos contos e crônicas de Keegan, mas não li nenhum integralmente. Interessava-me mais a promessa da escritora que ela não se tornou do que a escritora que de fato ela era. Interessava-me mais a sua breve carreira literária interrompida pela tragédia. Interessava-me o aristotelismo do que poderia ter sido ao invés do que foi.
Pois eu também já fui uma promessa aos vinte e um anos quando escrevi meu primeiro romance e passei a frequentar os círculos literários curitibanos.
Era um rapazola quase concluindo a faculdade embrenhando-me entre os ilustres nomes desconhecidos da Academia Paranaense de Letras, ou com as elegantes senhoras do Centro Paranense Feminino de Cultura. Eu estava lá para ver e ser visto, para ser descoberto, para constatar positiva ou negativamente se havia algum espaço para mim.
No prólogo do meu primeiro livro, a atual presidente da Academia escreveu "o autor, que se prenuncia como uma promessa, trabalha com desenvoltura os múltiplos acontecimentos que afligem homens e mulhres o transcorrer de suas existências", o que me envaidecia e me assustava. Promessa de quê? E como se cumpre uma promessa?

Tive medo. Principalmente, medo de fracassar, de ser uma das várias promessas feitas apenas da boca para fora.
Eu tinha quase a mesma idade de Keegan ao morrer e estava longe de ser um escritor competente. Talvez fosse somente isto, "uma promessa", ou melhor, "o prenúncio de uma promessa", que nem promessa ainda era.
Treze anos se passaram desde então e várias vezes me perguntei: se eu morresse hoje, o que seria da minha obra literária?
É uma indagação tola, reconheço, pois após morrermos não há nada, somente o fim.
O fim das promessas e das realizações, dos sonhos sonhados e dos realizados, do que é e também do que seria.
É triste ser uma promessa, mas é mais triste ser uma eterna promessa.

Até onde ela iria? Quão boa poderia ter se tornado? Qual seria sua obra-prima?
Estas dolorosas perguntas permanecerão para sempre sem resposta.

Publicado originalmente no Blog do Escritor

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