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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

HORÁRIO ELEITORAL GRATUITO



― Meu nome é Enéas!

A juventude talvez desconheça por completo a existência dessa figura folclórica da política brasileira: o médico Enéas Carneiro, que, em virtude do pouco tempo na tevê disponível a seu partido, disparava uma metralhadora verbal (mais de protestos que de propostas), encerrando sempre com a frase supracitada.

E foi assim que, nas eleições presidenciais de 1989 (a primeira após a redemocratização), doutor Enéas conquistou o voto do eleitor mais irreverente – uma minoria, claro, que buscava uma alternativa mais bem-humorada que sindicalistas raivosos ou caçadores de marajás.

O doutor Enéas pode não haver saído vitorioso nas urnas, mas indubitavelmente fez história. Não que ele tenha sido o pioneiro em trazer sorrisos aos rostos dos eleitores cansados da mesmice. Muitos já o haviam feito antes ― Jânio Quadros com as vassourinhas, por exemplo. 

Aliás, no quesito “boas risadas”, o horário eleitoral tem sido, ao longo da história, bem melhor que a maioria dos programas humorísticos, com aquele apresentando um hilário desfile de “chicas chicletes”, “pés de cana”, etc; que, pasmem, às vezes acabam conquistando, mais que os sorrisos, também os votos do cidadão brasileiro.

Morando há treze anos no Japão ― um país sem voto obrigatório nem campanhas partidárias na tevê ―; confesso estar com saudades do horário eleitoral gratuito (e alguns dirão: “é porque você não tem que aguentar isso todos os dias”). Saudades, sim, mais das figuras folclóricas que do processo eleitoral em si. Este, sabemos, é um show de ilusões, que sempre resulta em decepções quando as cortinas se fecham em outubro.

Então que até lá, pelo menos, nós, os palhaços, possamos rir todos juntos.



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Edweine Loureiro
Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas, e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Ed. Litteris, 2000), Clandestinos [e outras crônicas] (Clube de Autores, 2011) e Em Curto Espaço (Ed. Multifoco, Selo 3x4, 2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (RJ) e da Academia de Letras de Nordestina (BA).
todo dia 24


4 comentários:

A sua crónica é deliciosamente divertida! Eu desconhecia a realidade do Japão, mas quanto às campanhas eleitorais no Brasil, elas também já têm alguns seguidores atentos em Portugal!!!! Haja bom humor, mesmo quando falta seriedade e consistência por parte de algumas campanhas políticas. Abraços luso angolanos Luísa

«um país no qual o voto não é obrigatório e, consequentemente, onde inexiste a campanha na tevê» - Consequentemente? Parece-me que mais se justificaria nesse caso, a fim de cativar alguns potenciais eleitores que assim deverão abster-se. Suponho que a abstenção seja enorme.

Tambem pode ser visto dessa forma, amigo Joaquim. Mas o fato e que realmente a abstencao e alta: e fico feliz por isso. Quanto maior o grau de instrucao, menor a obrigatoriedade do voto, ao meu ver. Abracos e obrigado pelo comentario.

Obrigado pelo comentario, amiga Luisa. Pois e: essas diversidades sao fantasticas e merecem registro. Um grande abraco poetico. :)E obrigado pelas palavras.

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