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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Espera

Já faz um punhado de dias que ele entrou no mar e não voltou mais. Faz esse mesmo punhado que eu me paro aqui na beira da água pra esperar que ele saia. Nem tinha amanhecido direito e o homem já tava na rua, as rede nas costa, o lampião e a marmita na mão, pronto pra subir no caíco. Naquela madrugada eu tinha sonhado coisa ruim, avisei pra ele não ir, mas o desinfeliz não me escutou e ainda saiu a passo, que tava atrasado, então eu não tava vendo os outros cinco lá na frente, já embarcado? É claro que eu tava vendo. E isso era o pior. Sonho ruim parece que fica acontecendo e acontecendo e acontecendo nas vista depois que a gente se acorda.

Ele foi o último a embarcar. Tava com as bermuda marrom de pescar e a camisa branca que a minha sogra deu. Era pra ter levado o casaco, que de noite esfria, mas nem isso ele atinou. E eu voltei pra casa dar jeito na vida, plantar umas muda de tomate gaúcho e limpar as tainha pra janta. Gosto mais frita, mas ele queria ensopada, não custou fazer. E arroz. Passou e muito da hora de dormir, as panela esfriaram em cima do fogão de lenha, brasa apagada, a mesa posta – pras mosca – e ele nada de passar pela porta, assobiando daquele jeito embalado, raspando os calçado na grama pra tirar o barro. Não preguei o olho sentada na cadeira de pelego, uma agonia medonha.

Terminou a madrugada e do meu homem nem sinal. Aí foi a primeira vez que eu me fui pra beira da praia esperar. Com a camisola que a mãe me deu de casamento. Meus cabelo tavam solto e como tinha vento – aqui sempre tem – eles voavam na cara. De vez em quando eu amarrava os cabelo com cabelo mesmo e ficava reparando na bainha de croché na altura do meus joelho. Na minha cabeça eu achava que uma hora eu ia olhar pra frente de novo e ele ia tá ali, parado, de braço aberto, pedindo desculpa. Perdi as conta de quantas vez repeti essa esperança, molhando os pé na água e rezando, misericórdia, pra virgemaria me devolver o marido logo. O tempo foi muito, tanto que a minha barriga cresceu, nasceu a criança e ele inda não veio.

Ele não veio. Não veio. Não veio, não. Teve um dia que saiu um homem do mar, mas não era o meu. Molhado, esfarrapado, fedendo a podre, a camisa aberta na volta do bucho inchado, os olho arregalado tudo branco, as perna riscada de variz e ferida. A criatura veio na minha direção chamando o meu nome e chorando. O susto foi tamanho que gritei praquela assombração subir ou descer, me deixar em paz, e disparei até a vila. O nenê depois reboleava na minha barriga, eu tava quase ganhando. Fiquei duas noite de cama, adoecida pra parir, quase que morri tendo as dor, eu. Minha nossa. A mãe não saiu da cabeceira e a tia Eva me botava compressa na testa. A coisa foi assim até que o guri nasceu. E me tiraram. A mãe tremia que nem sei, mas não impediu. Levaram meu pequeno embora e eu berrava que era meu, era meu, e eles diziam que louca não tem condição de criar filho. Quando consegui me aprumar e andar sozinha, comecei tudo de novo. Que quando meu homem voltar do mar vai me encontrar esperando por ele, vai saber do que me fizeram, onde já se viu. E vai se arrepender de ter demorado.

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Andréia Alves Pires
Nasceu em Rio Grande, cidade ao sul do Rio Grande do Sul, é jornalista, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.
todo dia 22


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