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terça-feira, 15 de julho de 2014

perdoem-me

Gordas.
Elas são muito gordas mas quase elegantes de tanta juventude.
Não são no entanto as rechonchudas de Renoir. E, por alguma razão que nem entendo, estão longe de serem semelhante às gentes de Botero.
São simplesmente muito gordas. Vê-se-lhe a pele rebentando tensa, as pernas mal podendo dar um passo roçando-lhes uma na outra carnes excedentárias.
Vejo-as pelas praias.
Gordas.
Gordos de igual modo os meninos delas, a barriguita debruçando-se sobre o elástico do calção de banho, e eles com o andar de pato que acabam por ter todos os muito gordos.

Mães e filhos sentados numa qualquer esplanada ou para cá e para lá na borda dum passeio, um gelado de muitas bolas encavalitado num cone ou um prato de batatas fritas acompanhando um pão recheado de carne picada e, escorrendo, muita gordura e muito molho
Mães e filhos. 
Gordos.
E também famílias. 
O pai igualmente muito jovem e muito gordo. 
Pai e mãe que se fizeram gente em plena época do fast-food, e nem  fatias de pão, amassado e levedado, barrado com banha de porco coberta com açúcar amarelo como tinha sido com avós e pais. E poucos eram gordos. Raros eram os obesos no tempo de serem jovens os pais e avós destas mulheres e seus meninos, maridos e filhos.
Gordos que vejo pelas praias e ruas da cidade.
Haverá, por certo, estudos a saber o que comem estes meninos, e seus pais e mães atarefados na ida para o emprego e a levá-los para a creche e a passeá-los na grande superfície enquanto enchem o carro de frascos e enlatados.
Será gente que diz: “como qualquer coisa” ou “como na cantina, mas não a sopa que não gosto”. E na creche ou na escola, também os seus filhos rejeitam a malga da sopa, que em casa nem há o hábito e nunca há tempo, nem vontade, para ferver uma boa panela de feijão ou grão e muito legumes variados.
Gordos eles e elas e os seus filhos e nem será dos genes.
Será de alimentação que se trata ou haverá um leque de razões?
Ou serão eles gordos de coração: gordos eles e elas e os seus filhos, e felizes de assim serem. 
E serei só eu  que os vejo carinhas de anjo em corpinhos cansados.
E será só a mim que dói olhá-los: que obesos ainda nem serão, mas um gordo é outra coisa e a estes nem um bom regime os salva, mesmo com caminhada  intercalada.
Gordas e gordos. 
Valha-lhes o Deus em que eu nem creio, mas n'O qual acreditarão tantos deles.
Que Ele lhes indique outros modos: que os afaste das gomas e da Coca-Cola e outros refrigerantes e que os salvem das pipocas e dos molhos.
Ou será até saudável para o bem estar da família, que pais e mães e filhos se sentem mastigando  gomas ou depenicando pacotes de milhos rebentados em frente da TV.
Digo assim, eu que nada sei.
Eu que estarei, olhando-as, gordas com seus maridos e filhos, imbuída de um imenso preconceito e nem um Deus que  me redima. 

Gordas elas 
e maridos e filhos,
perdoem-me
e rezem pela pela minha alma pecadora 
de olhar-vos.

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3 comentários:

Maria, Maria... Você e seus textos... Sigo seu fã, mulher. Ô, prosa deliciosa essa que você sempre escreve. Parabéns, mais uma vez!

Sempre me pareceu um paradoxo que os potes de banha, afinal, sejam pessoas de muito fracos recursos. Um hamburguer é mais barato que uma refeição frugal mas variada. Os outros, os que não têm problemas económicos, não têm desculpa. A cultura faz muita falta, nomeadamente a cultura da mesa.

GORDO: Individuo com tecido adiposo desenvolvido em EXCESSO...
MAGRO: Individuo que tem FALTA de tecido adiposo...
Como os opostos se atraem!
GORDO ou MAGRO, pode ser rico e por tal dar-se ao luxo de EXCESSOS, como também ser pobre e por FALTA de, ter outros Excessos...
Como a conheço e sei o que vale, apenas lhe digo: Mais um grande e bom texto, sem papas na língua, e, quem gosta, porque quem não gosta... Continue assim, a ser quem é... Réjo Marpa


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