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sábado, 12 de outubro de 2013

O Futuro de Presente


Hoje, para homenagear todas as crianças (sobretudo aquelas que habitam o coração dos ditos adultos), um singelo texto de cunho infanto-juvenil, o qual escrevi, aproximadamente,
 há uns dois anos. 
Boa leitura e feliz dia das crianças!



Por Lohan Lage Pignone

O que você vai ser quando crescer? Essa pergunta sempre martelou na cabeça da pequena Julieta. Aquele seu tio bigodudo não se cansava de perguntar isso. Vinha lá da cidade grande, cheio de idéias grandes, e de pança grande. Seu perfume era de fumaça. “A fumaça da Maria-Fumaça”, ele dizia, com seu sorriso amarelo.
            Julieta aprendeu o significado de passado com o seu avô. Do presente, ela não sabia. Às vezes, seus pais conversavam às escondidas, com portas fechadas. Julieta sabia que falavam do presente. Das dívidas, do cardápio, da escola, do casamento. Julieta observava sua mãe picando os tomates. Aquele era o presente do tomate, coitado. Mortinho da silva sobre a tábua. Que presente de grego, esse. Mas ela não sabia nem o que era grego. O avô só falava dos tempos de outrora, mas Julieta também não sabia o que era outrora, então, isso pouco importava para ela. Sentado no banco da praça, olhando fotografias amareladas, o patriarca dizia que era preciso recordar para viver. Julieta deitava-se em sua cama e ficava horas a fio tentando recordar. Não conseguia se lembrar de nada ou não tinha nada para lembrar. O que uma menina pode recordar tendo vivido sete primaveras? Tudo cheirava a novo, não era amarelado como os dentes do tio bigodudo, e nem tinha poeira. Aquelas lembranças não podiam ser do passado só porque tinham passado. Passado é coisa de museu, ou um senhor sentado no banco de uma praça...
            Julieta, então, concluiu que não vivia.
O pai ainda veio dizendo que o Papai Noel estava resfriado e não viria no Natal. Também pudera aquele monte de neve, de gelo... Ele não se agasalhou direito. Julieta tentava se consolar com aquela notícia. A menina descobriu da forma mais triste o que era presente. Presente era o aviso de que não haveria presente. Sofrer no presente, agora, era o seu maior dilema. Já não vivia porque não recordava. Abriu o berreiro, sufocando-o com a almofada. O seu pensamento pulou por cima da cabeça de muitas semanas. Caiu estatelada na noite de Natal e viu o bom velhinho espirrar. Julieta lhe desejou saúde de presente e pediu que melhorasse logo, pois, queria aprender a andar de bicicleta.
            Tempo, tempo... Julieta estava confusa com tanto tempo na cabeça. E ainda ouvia seus pais reclamarem pela falta dele! Triste com o presente, Julieta descobriu o futuro e, todos os dias, sonhando acordada, ela se transportava para lá. Mil maravilhas estavam à sua espera. Bonecas imensas, muitos carrosséis, gramas para pisar, livros para ler de cabo a rabo, bichinhos para cuidar. Pronto, era isso: ela queria brincar de médica com muitos bichinhos. E quando o tio bigodudo voltou da cidade grande, ainda mais pançudo, pegou a menina no colo e perguntou o que ela queria ser quando crescesse, Julieta respondeu, pela primeira vez, com a certeza mais utópica e adorável que somente as crianças têm: “Quero ser médica de bichinhos!”.
            O tio bigodudo riu alto e anunciou para a família como se fosse a novidade de um cometa: “Ela quer ser veterinária!”.
            Aquele nome ela não sabia o que era. Só sabia que era um nome feio de doer. Desistiu de ser aquilo, e passou a observar as estrelas. Decidiu que ia viajar pelo espaço sideral e pular corda na lua. Daí em diante, Julieta só pensava nos dias que estavam por vir. Agora sabia responder, na ponta da língua, a pergunta incansável do tio bigodudo. E esse tio ensinou para Julieta que só na cidade grande se crescia. Julieta pediu de presente uma casa na cidade grande. Mas o presente... O presente insistia em estar, e nunca chegar. Chegou o Natal. Papai Noel deixou a bicicleta na sala. Como ele entrou Julieta não entendeu, pois não havia chaminé em sua casa. Julieta não sorriu diante do presente de Natal. Era uma menina infeliz. Não ia aprender andar de bicicleta, tampouco ia escrever diário. Julieta queria mesmo era o futuro de presente.



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