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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

SINUCA DE BICO



Otávio Martins
                                                                                                                  
  Ainda não consegui sair desta sinuca de bico. Mas, nem por isso me sinto derrotado. Sair de uma sinuca de bico é como acertar numa centena no jogo do bicho; uma contra novecentas e noventa e nove. A chance de ver alguém sair de uma sinuca de bico, já se pode considerar um privilégio. Talvez, para se entender melhor, seja necessário evocar um samba de Noel: “... Batuque é um privilégio/Ninguém aprende samba no colégio...”. Do contrário, eu e alguns amigos meus, que varáramos as noites, jogando por aí, teríamos aprendido a superar essa dificuldade da sinuca.

  Ter assistido a uma partida entre o Praça e o Carne Frita (duas feras do pano verde), também, pode-se considerar um privilégio. Tudo aconteceu num snoker que ficava ali na Ipiranga, quase esquina com a São João, em frente à banca de jornal. Anos sessenta. Para adentrar a sinuca, propriamente dita, teria que passar por um corredor com suas oito cadeiras de engraxate; quatro de cada lado; colocadas acima do nível da passarela.

  Numa fria madrugada de agosto, formávamos uma plateia de uns quinze amantes do jogo, o qual se desenvolvia sobre o pano verde de uma bem postada mesa, sustentada por seus possantes seis pés. Foram mais de dez minutos de suspense. O Carne Frita colocou o Praça numa verdadeira sinuca de bico, naquela mesa do meio; caçapa do canto, à direita.

  O Praça era um dos maiores nomes da sinuca nessa época. Lembro, também, do Rui Chapéu. Grande figura e, ainda, um taco de respeito; tinha um estilo próprio, até mesmo para passar o giz. O Carne Frita, sem comentário.

  O Praça, com a ajuda do seu taco e algumas miradas, de um olho só, quase encostando o rosto na lateral da mesa, media, ou calculava, as tabelas e efeitos que seriam necessários pra sair daquela situação criada pela quase malícia do Carne Frita. Parecia que a bola branca havia sido colocada com a mão. Eu, acho que todos os outros, suava frio durante aqueles dez minutos que pareciam intermináveis. Conjecturas, imagino, mirabolantes; silenciosas, a que o Praça se obrigava.

  Uma verdadeira tacada de mestre. A bola rodopiou sobre o próprio eixo, imaginário, na largada; pegou um efeito diabólico. Seis tabelas e bola. Exatamente como ele havia cantado:
     
  - Seis tabelas e bola – ainda por cima, matou a bola seis, a rosinha, na caçapa do meio. Com oito pontos à frente do Carne Frita, era o fim. Talvez a maior final de todos os tempos da Sinuca Nacional.
  O Carne Frita ficou quase dois meses sem aparecer lá no snoker da Ipiranga. Efeito moral ou, quem sabe, penitência. A verdade é que a sinuca melhor freqüentada da cidade viu-se privada, por todo aquele tempo, da maestria do Carne Frita.

  Afora a mesa da sinuca, lembrei de outro quadrado, este formado pelas esquinas da Ipiranga com a Avenida São João. Também garrei a imaginar o que aconteceria, hoje, no coração do Caetano Veloso, se cruzasse por lá?

  Escrevendo esta crônica, num breve momento, a memória trouxe-me a lembrança duma antevéspera de Natal, 1980. Tínhamos acabado de sair do Gato que Ri, o Adoniran Barbosa e eu, Largo do Arouche. Falou que gostaria de dar uma esticadinha até a São João com Ipiranga, antes de ir pra casa. Morava lá pro lado do Aeroporto. No restaurante, comemos uma bela macarronada al sugo. Era sempre ele quem pagava. Antes, uma dose de uísque cada um, depois, um cigarrinho. Pegamos a Vieira de Carvalho, costeamos aquele canto da Praça da República e entramos na Ipiranga; ainda olhamos, rapidamente, uns cartazes do Cine Marabá e logo chegamos ao cruzamento. Vasculhou, com o seu olhar, os quatro cantos, já com os olhos marejados; fingi que não vi. Acho que se lembrou de outros tempos. Pra mim, ainda era a mesma esquina. Virou-se, fez sinal prum táxi, já passava das dezesseis horas. Avançamos pela Ipiranga, entramos na São Luís. Depois de passar pelo farol, entre o início da Consolação e a Biblioteca Mário de Andrade, chegamos ao final do Viaduto Nove de Julho. Boca da Santo Antonio, quase chegando à Praça Craveiro Lopes. O táxi parou, era o meu ponto de descida. Antes de eu sair do táxi, vejam o que ele fez: meteu a mão no bolso de dentro do paletó – aquele xadrezinho, de lã – trazendo, na volta, algum dinheiro. Eu andava numa pindaíba de dar pena. Disse que era a minha comissão do show da Unicamp, o qual iria se realizar no dia oito de janeiro, do próximo ano. Queria ficar livre do compromisso, completou. Desci do táxi com um nó na garganta. Esses gênios apresentam cada uma...

  Onde era a sinuca, parece que virou um fliperama, depois, uma loja. Os engraxates sumiram, varridos pelo efeito Nike, ou Adidas. O Bar dos Artistas, lugar onde os músicos da noite, “desempregados” – formando uma grande orquestra em silêncio – ficavam aguardando algum chamado emergencial duma casa noturna qualquer. O Bar dos Artistas, que não fechava nunca, tinha o melhor sanduíche de pernil da cidade, feitos pelos sócios, dois portugueses, virou um bingo, informatizado. Atravesso a São João e não encontro o Jeca, onde, por muitas madrugadas, costumava tomar um caldo verde. Que tristeza! Dizem que passou o ponto pro cara do mate gelado, que funcionava logo descendo a São João, em direção ao Largo Paissandu.

  Lembram do esquinão, com aquele baita vidrão, parecendo uma grande vitrine, onde funcionava o Bar Brahma? Havia cedido a um consórcio de carros, ou de motos; nem sei que pôrra é aquilo. O Bar Brahma voltou, depois de um tempo, ao lado, pela São João. Como diria o cubado Silvio Rodriguez, que imortalizou a Yolanda do Pablo Milanês, “És lo mismo, pero no és igual”.  Espero que não venha acontecer ali, a cena de sangue prevista e cantada pelo Paulo Vanzolini, numa de suas rondas pelas noites paulistanas.

  “Em pé”, mesmo, só o Citi Bank. Esse eu quero ver tirarem dali, mesmo depois do escândalo dos Fundos de Pensões, onde esteve envolvido até a medula.
  Eta ferro, sô!

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1 comentários:

BELÍSSSIMO TEXTO OTÁVIO!! adoro seu jeitão despojado de escrever e também sensível, emocional e grande!!
nem sei o que dizer, é emocionante mesmo este seu texto, além de histórico arquitetonico e urbanistico... cultural, artístico, um verdadeiro documento raro de nossa história!! AGRADEÇO, abrações, Nadia

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