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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A arte de Fausto Olívio


Fausto Olívio sempre foi um homem feminino. Não que desmunhecasse
ou tivesse preferências homossexuais. Muito pelo contrário. Transitou por grandes amores héteros, viveu romances arrebatadores, frequentou as entranhas de belas mulheres, daquelas que muito marmanjo clássico nem ousava merecer chegar perto.
Mas desde pequeno, bocas de Matilde:
- Sei não, esse menino é meio maricas.

Fausto Olívio não gostava de futebol. Dizia ser rude e violento correr atrás de bolas, roçar canelas ou encostar nos músculos suados dos meninos. Por isso, praguejavam sua pecha de pintinho doce na vila, mimadinho e delicado, ou coisa de pouca machesa. Tudo inveja dos moleques suarentos, nhaquentos repulsivos às menininhas em flor, que rodeavam Fausto Olívio com olhares cúmplices e suspiros das maiores profundezas.

Se não gostava de bonecas, era doido por panelinhas. Picava plantinha, amassava florzinha, misturava com aguinha. - Tá pronta a comidinha, quem vai querer?
E não havia, entre elas, menina que não raspasse as panelas ou lambesse os tenros beiços vestais.

E Fausto Olívio foi crescendo, sempre com seu jeito fofinho, desses ursinhos
que dá vontade de dormir abraçadinho. Tomou corpo o rapaz de homem feito e bonitão.
Mesmo ser se dado a esportes, tinha músculos bem definidos, porte de garanhão e volume no calção. Mas do macho que se espera macho, provedor e donatário, ciumento e proprietário, era pura ilusão.

Do que ele gostava mesmo era de estar com as meninas. Vaidoso e bon vivant, bom de papo e confidente, com seu chame diferente, recitava poesia, falava prosas bonitas,
trocavam segredos e opiniões.

Desenhava as amigas como ninguém. Até no papel de pão, fotografava com lápis a alma e expressão das moças, ousando às vezes imaginá-las nuas, com detalhes de curvas e traços, púbis e pelos, jeitos e olhares. Nunca levou um tapa na cara por causa disso. Era a ousadia quase sempre premiada. Seguiam-se, não raro, beijos, abraços, afagos, entregas intensas noite adentro.

Sabia as músicas que cada uma gostava e arriscava o que podia num plangente violão.
Fausto Olívio cozinhava para as mulheres. Do omelete ao cassoulet, do assado ao guisado, no forno, nas trempes ou no fogão,era um mestre em encontrar o Ponto G nas papilas gustativas.

Haja encantamento. Conhecia a alma feminina, a essência da mulher, os mistérios das fêmeas, tudo por intenção ou intuição, tanto fazia, o resultado é que nunca vivia sozinho, micado ou abandonado.  

E assim, Fausto Olívio foi enfileirando uma a uma. Primeiro as da vila da infância. Depois as do colégio, em seguida as da Escola de Belas Artes e da vida que fervia ao seu redor. Até que se ajeitou firme com uma atriz, um tico mais velha que ele, com quem se casou e mudou. Tiverem um casal de filhos, uma casa com fogão de lenha, atelier e jardim. Como casamento convencional chegou a durar muito. Mas sem aviso nem sinais, a atriz, de danado coração, tomou um desvio sem volta, deixando Fausto Olívio triste, sem chão. Chorou, gemeu, urrou de dor e saudade. Quis morrer, parar de comer, não parar de beber. Mas nada é tão sedutor do que um homem de alma aberta, assumida sensibilidade, artista e apaixonado, carente e abandonado.

Choveu de tudo no seu jardim. Amigas da meninice, colegas da Belas Artes, musas dos primeiros rabiscos, parceiras de excentricidades, transeuntes de suas esquinas. Todas a ex,  reais, platônicas e virtuais, aparecerem em seu socorro. Sem falar naquelas que o tempo reservou para encantos mais recentes. Mas mesmo assim, Fausto Olívio não se casou de novo, sem nunca se sentir sozinho. Teve genro, nora e neto. E uma infinidade de mulheres ao estalar dos dedos.

Fim de semana passado, Fausto Olívio fez 70 anos. Abriu os portões do jardim. Foi para o fogão de lenha e se esbaldou nos caldeirões. Vinho a rodo, champanhe até dizer chega, vodkas polonesas, pinga, cerveja, uisque de todos os anos e muito absinto, o néctar dos artistas atrevidos.
A festa corria solta, música sem parar. De homem, um filho, um genro, um neto e só.
No mais, o gênero feminino em peso: noras, primas, colegas, artistas, amigas e todas as ex que os tais 70 anos guardaram, em segredo, ou escancarados, nada importava naquele momento de tantas namoradas, amantes, casinhos e paixões, mulheres que pintou, musas que desnudou, amores vividos ou a viver. Nada faltou de afeto, carinho e delírio naquela tarde de domingo.

Já era noite quando o neto tomou a palavra. Tlim tlim, garfo batendo no copo, segura esse baticum:
"Quero fazer um brinde ao meu avô. Este homem invejável, espelho espelho meu, exemplo de sensibilidade, sabedoria e querideza. Mas antes, uma pergunta que me persegue há anos de admiração: vovô, qual o segredo desta vida plena, ditosa, enriquecida
de tantos amores e amores reunidos?"

Fausto Olívio levantou-se. Com ele, a taça de vinho, já cansada de tanto trabalhar. Cambaleou. Olhou a mulherada a perder de vista no jardim. Todas estavam lá, um harém respeitoso, cada qual com seu olhar embevecido e guloso. Voz pastosa e pigarreante, o homenageado foi breve:
- Meu querido neto, a arte de amar e ser amado por uma mulher,
é... é... é...  nunca gozar antes dela!

Segue-se um silêncio constrangedor. Apenas um solitário e estridente:
- É por isso que eu te amo!

Muitas se entreolharam de cabeças baixas. Respirações foram suspensas, suspiros contidos e sorrisos desenharam-se de soslaio. Dizem até que houve um princípio de estapeamento atrás de um bouganville. Mas o neto expedito não deixou a coisa degringolar: gritou um Viva ao vovô! e emendou um urgente e providencial Parabéns pra você!

Claro, suspenderam a bebida e trataram de cortar o bolo.   
Uma ressaca de segunda feira começava a despontar.


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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
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