Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha filha Rita em meu sonho me sorria –
com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Rita – Rubem Braga


         Vera está esperando, em algum lugar. É uma linda menina, de cabelos castanhos e olhos profundos. Algumas coisas nela lembram a mim. Não sei se será espontânea como o pai, não sei se será calada, como o pai. Serei um orgulhoso pai e ela me amará profundamente, como sei que já ama. Sei que ela, de onde está, se irrita com meus erros, vibra com meus acertos, chora quando eu choro. Talvez ela sinta pressa em chegar, talvez ela deixe outras crianças passar. Mas saiba Vera, que, tristemente, talvez você nunca possa chegar. Queria eu conhecer logo a sua mãe, queria que o nosso amor fosse grandioso para tecer a rede que nos abrigará juntos, pai e filha. Eu acariciarei você e seus longos cabelos castanhos no meu colo, para vê-la adormecer devagarzinho e guardar seu sono como o mais furioso cão de guarda. Mesmo se não for pai, já o sou, em meus sonhos e na inveja que sinto dos homens que criam suas filhas. Se acontecer outra coisa, não me preocupo. Saberei criar e amar da mesma forma o menino que virá em seu lugar. Se ele também não vier, saiba que ainda assim, minha amada filha Vera, sempre estarei pronto a recebê-la, ensinar-lhe o nada que sei e o meu confuso e alegre jeito de amar...


***


          Minhas ilusões não duram tanto quanto eu gostaria. Acostumei-me a viver em uma rodoviária.


***

          …e no momento em que chegamos em sua casa, uma casa que eu já havia conhecido, lembrei de tudo o que eu havia visto ali. Os quadros de sua família, os rostos de antigamente, os móveis, os quartos, a cama que já havíamos partilhado. Eu estava feliz de estar ali novamente. Andei pela casa toda, revendo tudo o que estava em minha memória. Ela nada disse nem foi comigo. Ao voltar, vi que ela era familiar, seus modos, seu jeito de falar, andar, pegar na minha mão e beijar, não só a sua casa nem os quadros de sua família, os rostos de antigamente, os móveis, os quartos, a cama que já havíamos partilhado. Levei as mãos para o seu rosto e comecei a acariciá-lo, sorrindo por ter novamente familiaridade. Por aqueles segundos, eu senti que fazia parte de sua vida, como os quadros, as pessoas de antes, os móveis, os quartos, a cama. Todas essas coisas disseram-me que faziam parte dela e que estavam felizes por eu tê-las reconhecido. Agradeço por saber que o amor traz consigo tantos detalhes que animam um sentimento, e não lamento se ele acabou ou não...


***


          O papel da literatura é o papel de pão, a conta do supermercado, o recibo do cinema, a revista dos fatos da semana, o encarte do disco, o caderno da escola, o cartão de descontos, a prova do vestibular, a enciclopédia vendida na porta, a coleção de livros infantis, a nota do cartão de crédito, a cédula de dinheiro, a contracapa, a capa, a carta de despedida, o bilhete amoroso, o envelope, o voto da urna, a lista de compras, a lista telefônica, o rótulo da embalagem. O papel em que escrevo é tão bom quanto. Palhas de arroz.


***



          Eu quero fazer um romance, inteiro, demorado, clássico. Contu-do, não vou além disto. Faço pouco e não me sinto triste pelo pouco que fiz: me apronto na poltrona para cochilar sem a menor consideração com tudo aqui que deixei em branco.

Share


Rafael F. Carvalho
Autor do livro A Estante Deslocada, é paulistano, nascido em 27 de Fevereiro de 1978. Foi publicado em antologias de novos escritores e em jornais universitários, e é formado em Letras pela Universidade de São Paulo.


todo dia 17


4 comentários:

Que fragmentos deliciosos! Mas confesso que Vera me tomou por inteiro, com suas mãozinhas de menina bem-educada, com seus olhos castanhos e os cabelos cacheados nas pontas. Ele me chamou com o dedinho e seu olhar de "auero conhecer o mundo inteiro" e eu fui até lá, viver a fantasia dessesuposto, pretenso, possível pai. Amei a sua Vera! E sendo ou não verdade — que a fantasia da literatura às vezes é de verdade e de outras é tão somente ficção — eu presto meus respeitos a esse homem que quer ser pai, num mundo em que tantos procriam irresponsavelmente. Vera é linds!

O papel de literatura é tudo isso. E também aquele bilhete apressado com lembretes do dia a dia, como um dia escreveste. Tudo tão poético.

Lindos, Rafael.

Beijos :)

Rafa, gostei dos fragmentos rafaelinos! Tem você nas linhas escritas. Gostei!

Beijos, Jô

Há vida inteligente na internet!
Aguardo visitas e comentários!
http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2012/12/pathos.html

Postar um comentário