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sábado, 20 de outubro de 2012

Insólito amanhecer

Destruído. Entorpecido. Morbígeno. Enfermiço. Chapado. Derrubado. Imprestável.
Minha cabeça é um dicionário de sinônimos e termos afins. Palavras pesam, perguntas piscam, torturam. Que lugar é esse? Que horas são? O que aconteceu?  Olho para o alto e vejo quem é meu inquisidor: Rui Batista Galvino, eu mesmo. Então, é isso: morri. Dizem que a primeira noção que um ex-vivo tem da própria morte é quando ele enxerga seu corpo inerte à distância. A imagem é de tirar as crianças da sala: eu, decúbito dorsal, olhos rumo ao infinito, cor de cadáver, nu, pernas e braços em xis sobre lençóis floridos de uma cama de casal. Não há poças de sangue nem sinais de violência. E me esbaldo em divagações. Minha suposta face post mortem não tem nada de serena, meus cabelos desgrenhados para trás prenunciam que uma calvície sem vergonha já batia à minha testa, minha musculatura está preservada e até que bem definida para minha idade, graças a horas de running, halteres e treinos extenuantes na academia de box tailandês. Minha barriga ainda lembra um tanquinho de lavar roupa, como costumava elogiar a mulherada lasciva. Minha depilação relativa funcionou, reparo meus pelos rentes bem contornados, deixando o pênis de proporções imodestas em razoável evidência. Bom ter operado fimose em criança. Contemplo orgulhoso meu camarada bem esculpido, repousando todo pimpão enviesado para a esquerda, até que o mantra volta a me atormentar: que lugar é esse? Que horas são? O que aconteceu? Mas eis que o óbvio súbito me assalta: o espectro que me assombra é meu reflexo no espelho no teto, claro, ridículo, sou um idiota dentro de um motel ordinário, entregue àqueles momentos de pré despertar, onde sonhos se embaralham com a realidade e você custa a distinguir o que é devaneio ou verdade,  mas um fiapo de consciência me cutuca em desvendar um mistério: ouço um chuveiro ligado, portanto não estou só. Ou teria sido eu mesmo que liguei a torneira, cambaleei do banheiro até a cama e cá me estatelei para a eternidade? Não. Por que aportaria a um abatedouro vagabundo sozinho? Seria o cúmulo do culto à  masturbação, deliciosa autossuficiência que, não nego, celebrei a vida inteira com muita imaginação, sem fazer uso de dispêndios inúteis ou mulheres reais, pegajosas e repetitivas. Ái, ái, ái.
Quanto mais penso, mais lateja a cabeça. Não consigo mexer pernas, braços, dedos, talvez o pescoço me ajude, atenção agora: queixo no peito, cervical em riste, ligo o radar, varro os arredores como posso, detecto ao longe copos e uma garrafa de uísque vazia dormindo no carpete, entre roupas espalhadas e emboladas, camisa social na beira da cortina, um paletó jogado no frigobar, uma gravata enroscada no abajur, calça, sapato, meia, cuecas. Cuecas?
Meu coração desembesta. Estou morto, estou vivo, estou sonhando, estou maluco, estou drogado,
quem é esse cara surgindo pela porta espelhada com a toalha enrolada na cintura? “Breno”, diz ele, “Breno, Dr. Rui.” Cara de ninfeto, olhos de lúcifer, ele sorri atrevido: “Até que para um homofóbico de carteirinha o senhor se comportou direitinho.” Meu corpo não responde aos instintos de pular na jugular do patife, que agora pega um smartphone na cabeceira e esfrega bem nas minhas fuças imagens sórdidas que me enchem a boca de nojo e me dano a cuspir a esmo, cuspir, cuspir como posso, pro lado, pro queixo, pra cima, nos lençóis, no travesseiro, sobrando saliva até para o meu próprio rosto, que agora aparece em close na telinha do celular, putaquepariu, passando a língua no corpo nu desse moleque, como um cachorro lambão até encontrar sua boca, que horror, e cravar-lhe um chupão, seguido de um golpe de braços e tórax, quando me vejo de bruços no macio
dos lençóis floridos, sob o corpo do rapaz, que me mordisca a nuca, me abraça com carinho e ferocidade, me faz gemer e balbuciar um “Isso, isso... delícia, garoto, delicia garoto”, que absurdo, que pesadelo, me desconheço, me horrorizo, me indigesto, me audito e não me assino embaixo, eu mato esse cara, está tudo gravado, eu mato essa cara, “Como chegamos até aqui?”, penso alto com um filete de voz sem tirar os olhos do celular. Ele diz que tudo começou no happy hour do escritório, quando bebi demais da conta e aceitei carona do estagiário novinho e bonitinho, carinha de querubim, que me levou para um barzinho sub-reptício. “O senhor topou na hora”, afirma o infeliz, que jura que dancei em cima da mesa, mãos entrelaçadas com as dele, sem camisa, gravata na testa, rodando o paletó, subindo e descendo os quadris, empinando a bunda, deixando aparecer o cofrinho, fazendo malabarismos faciais vulgares. Ele confessa também que para segurar meu facho colocou Roephnol no meu uísque, até me trazer para cá, diz que eu estava amável, relaxado, espirituoso e dengoso ao fazer essas coisas que a tecnologia não deixa mentir. De repente, tudo me vem à razão
e ao ódio, quem diria, logo eu, terror da bicharada, vítima de um golpe hediondo. Meus músculos enfim despertam, dou um salto da cama e olho fixo para o rapaz, anjinho dos infernos, pronto para enfiar na cara dele a garrafa de uísque que acabei de espatifar no espelho. Mas ele, tal como um guapo toureiro, se esquiva e deixa a toalha cair maldosamente, descortinando seu míssil enviagrado apontado para minha soberania, pronto a explodir meus prumos e pudores, um totem venoso, rosa lilás como um dia amanhecendo, pulsante, hipnotizante, esperto e apetitoso, que me treme
as entranhas e me formiga os bagos, não posso acreditar, fazendo reviver vagamente o bem estar que senti ao ver aquele ritual de luxúria inimaginável registrado no smartphone, cujos detalhes me poupo de relembrar, na maldita, ardilosa e traidora certeza de que gostei, ah, como gostei.
Neste momento baixa em mim o advogado negociador: “Menino, você não deveria ter feito isso. Você é um anjo perigoso, que não duvido ter planejado chantagear seu chefe”. Hora de ser calmo e estratégico. Maquiavélico como um caçador diante do veado arisco e sereno como um deslizar de um cisne num lago manso, ofereço um cheque polpudo em troca do chip de memória. É o meu único tiro. Mas ele é tinhoso. “Não precisava, doutor.  Mas já que o senhor é tão bom, aqui está o chip”. Ele é surpreendente: mastiga 16 gigas com os molares como se comesse pistache, vai ao banheiro, cospe minúsculos pedacinhos de memória no vaso sanitário, enquanto discursa pausadamente,
olhando de longe minha imagem degradada refletida nos espelhos: “Não preciso de lembrança eletrônica. Só gravei porque o senhor pediu, me disse que era um fetiche encubado. O que aconteceu esta noite passou, passou. Juro. Quem sou eu para chantagear alguém? Seria a palavra de um estagiário chinfrim contra um poderoso advogado tributarista. Além do mais, não se preocupe: não vou contar para ninguém, não vou mandar flores no dia seguinte. Apesar de disfarçar bem a idade, todo saradão e bonitão, o senhor parece uma mulherzinha carente, chata, submissa e suplicante na cama.” Tuff.  Mando-lhe um cruzado de direito tão violento no queixo, que foi dente por todos os espelhos. Agora quem chapa é o ninfeto insolente. Mais dois, três, quatro socos no rosto angelical, tuff, tuff, tuff, tuff, acho que quebrei o metacarpo, o escafóide, o sesamóide, as falanges, o diabo, como dói sem luva, desgraça, consigo enfim tirar o celular da mão do mortiço, o ex-bonitinho do escritório. Breno jogado no carpete respira como uma galinha que engasga com sangue, antes do molho pardo. Abro sua boca mole e lhe enfio o celular goela abaixo, o ganso vai virar patê, e soco, e grito, e surto, e rezo, e gozo, sufocando o anjo desfigurado com um travesseiro escrito Love is Life Motel. E sinto Breno estrebuchar até cansar dessa vida. Foi rapidinho, com relativo e merecido sofrimento, quem mandou?
O sol está querendo raiar. Mal consigo pular o muro nos fundos do motel. Aterrisso desajeitado num terreno baldio que dá para uma rodovia intensa e barulhenta. O céu pintando rosa lilás me alfineta a retina, me traz lembranças frescas e impiedosas. O dia renasce como outro qualquer, o tempo não para, o mundo gira, a Lusitana roda. Caminho troncho, com pé calçado e outro descalço, sei lá para onde e por quê. Tenho engulhos de vomitar bílis e soda cáustica. Ouço roncos de caminhões,
ônibus, carros, motos, camionetes, furgões, vans, jamantas, baús e carretas voando baixo nos dois sentidos. Aperto o passo e resolvo atravessar a estrada de olhos fechados.

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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


4 comentários:

Além da qualidade da história, a riqueza do vocabulário e das metáforas. Nível elevado.

A palavra certa, no lugar exato. Com começo, meio e fim, sinal dos bons tempos, temos autores marcadamente vivos, pulsando, criando obras que nos enchem mais do que, do bom e velho orgulho, mas também de certezas de que a literatura é um doce canal para se contar mentiras, revelar a ficção que existe dentro de cada um de nós. Este Insólido Amanhecer é algo que vale parar, ler e sair mostrando para os outros e nem precisa sem ao amanhecer.

Obrigado, Joaquim e Artur
as palavras de vocês são energizantes. E aumentam a minha responsabilidade.

É sempre bons ler belos autores, nome que são compromissos com a palavra escrita.

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