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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

'Avenida Brasil', ou O Brasileiro gosta de Histórias

Nesta sexta-feira, o Brasil inteiro parou para ver o capítulo final de Avenida Brasil. Ou melhor, quase todo o Brasil: apesar de ter assistido a alguns capítulos, e de ter achado a trama muito bem-feita, preferi ficar afastada da telinha para ... ler um pouco. Sim, para ler: Como Funciona a Ficção, de James Wood.


Essa leitura, aliás, é muito útil também para analisar o próprio fenômeno da novela das nove que eletrizou a audiência no país. Isso porque, embora trate especificamente de literatura, as tramas televisivas nada mais são do que histórias de ficção, tais quais as que se veem nos livros. É claro que o veículo é outro, a mídia eletrônica e não o papel; mas uma história é uma história, esteja ela onde estiver.

A construção dos personagens de Avenida Brasil, por exemplo, foi de primeira (na maioria dos casos), a começar pelo fato de que eles podem ser descritos como “redondos” ou “profundos” – em outras palavras, complexos, com múltiplas facetas e motivações, sem a divisão simplista entre bons ou maus. Ou alguém que tenha assistido à novela vai negar que a heroína Nina tenha apresentado as duas facetas? A própria vilã Carminha, que tanto aprontou, teve lá seus motivos para agir como agiu...

Wood, em Como Funciona a Ficção, não concorda muito com essas classificações de “redondos” e “planos”, prefere falar de “transparência” (personagens simples) e “opacidade” (relativos graus de mistério). Nesses critérios, Carminha, Nina, Max & cia eram prá lá de opacos – uma das exceções talvez seja Tufão, sempre bonzinho, sempre previsível.

O próprio fato da dualidade de muitos personagens que ajudou a desencadear outra característica da boa literatura: a empatia. Afinal, assim como Nina (ou até mesmo Carminha), nós também não somos totalmente bons, o tempo todo. Por que outro motivo tanta gente adorava a vilã?

Enfim, não é a teoria ou a nomenclatura que importam. A questão é que o sucesso da novela prova uma coisa: todo mundo, mesmo adulto, gosta de uma boa história. Só espero que, a exemplo do que fez Tufão em alguns capítulos lá para o início da novela, os brasileiros também reservem algum tempinho para procurar essas boas histórias nos livros. Já pensaram se esses milhões de telespectadores também virarem leitores?

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Maristela Scheuer Deves
Jornalista por formação e escritora por vocação. Atua como editora assistente de Variedades no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul/RS, em cujo site também mantém o blog Palavra Escrita, voltado ao mundo dos livros. Escreve desde que consegue se lembrar, e atualmente prepara para publicação seu terceiro livro, o infantil "Os Deliciosos Biscoitos de Oma Guerta", contemplado pelo Financiarte. De sua autoria, já estão nas livrarias o romance policial "A Culpa é dos Teus Pais" e o infanto-juvenil "O Caso do Buraco".
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