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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dia de morte

Créditos da imagem: flickr
De: Fred Matos — As marcas da vida

Conto: Cinthia Kriemler

        Olho o cão aos meus pés e me apercebo de como são iguais os sinais em nossas vidas. Os pelos brancos, o arquejar que vem do coração que falha, o corpo lento que ora cambaleia ao andar, ora recolhe pelas frestas da janela um pouco de sol para dar alento aos ossos. Tem sido sempre assim, desde que nos acompanhamos um ao outro.
Tento refazer o passado, retocando-lhe os traços com o lápis da memória, mas, a despeito do esforço, não consigo ser, ao mesmo tempo, personagem e narrador.  E a intenção esvai-se num pedaço de bolo que me distrai o paladar.
Não preciso de lembranças. Não as desejo. Faz um bocado que perdi de mim a menina que declamava poemas e que deslizava ao piano dedos de Bach e de Chopin. Que foi-se embora a moça que sorria com os olhos e não queria dormir para se aproveitar das horas. No ontem, havia a certeza de um tempo para errar. E havia sussurros nos ouvidos, sexo com nome de amor, possibilidades. Havia até sonhos. E a sensação de que nenhum deles precisava ter sentido.
Lembranças são mentiras que se fincam na existência como alfinetes perdidos sobre a cama, espetando de surpresa. Essas mentiras levaram-me tudo, num sangradouro maldito. Ou quase tudo. Deixaram-me os lençóis sem marcas, as feridas que nunca se fecham, e um desejo de saber como eu teria sido se pudesse ser feliz.
Meu suicídio não é planejado. Não terei sobre seu desfecho qualquer controle. Pode ser que se dê pelas artérias, que cansarão de ser entupidas por mim,  ou pelo açúcar que me amputará um a um os membros, ou talvez por aquela doença maldita que já afastou de mim tanta gente, e à qual alimento de tabaco tantas vezes ao dia. Talvez, se dê pelo cansaço. Ou pela solidão.
Mas se, antes, essa lenta imprecisão me era indiferente, agora, não mais o é. Não depois que Beatriz surgiu em minha vida conformada.
— Dia ruim?  — interrompe-me a sua voz carregada de acentos.
É sempre igual este começo. Ela toma sem permissão o meu espaço e obriga-me a respostas que eu preferia calar.
— Nem ruim, nem bom. Nada de novo. Mas você está feliz. Dá pra ver no seu rosto — digo, tentando mudar de assunto.
Não sou eu quem me interessa. De mim sei as falas de cor; conheço-me as máscaras que os anos trouxeram.
— Você é impossível mesmo!  Só de olhar pra mim já sabe como eu estou! — ela responde, com uma gargalhada presunçosa.
Engraçado... Eu costumava dizer o mesmo à minha mãe, que media meus humores pelo jeito dos meus passos. Mas Beatriz não é minha filha e não há entre nós nenhuma gota de sangue que nos leve a tal afinidade. A cria que pari se desfez de mim assim que me tornei amarga. Não conseguiu transpor a armadura que ajustei ao meu redor para afastar o mundo. Sentiu-se rechaçada. Foi-se embora. Mas não sem antes me dizer o que pensava de mim. E de levar consigo um resto de fé na qual eu enterrava as garras já tão cheias de sangue. Ela não teve culpa. Não tem. Não pediu para nascer de mim. Soltei os dedos da crença quando ela se foi, e nunca mais nos vimos ou nos falamos para mais insultos.
Beatriz não é minha amiga. Não é sequer dessas almas que vertem bondades por caridade ou vaidade. Beatriz é apenas alguém que permito ao meu vazio. Quando eu a conheci, nem gostei dela. Tive medo da sua intensidade, da sua mania de me arrastar para a luz. Mas, agora... Agora, aquela morte a conta-gotas se esqueceu de mim. E é Beatriz quem lhe ordena o esquecimento.
— ... numa exposição de artes. — está dizendo ela, indo em meio a algum assunto que me arranca das reflexões. — Ele só foi lá por acaso, você acredita? Para fazer companhia à filha recém-separada. E a gente se conheceu.
— Vocês já saíram juntos? — tento acompanhar a história.
— Você não está me escutando? Já faz mais de dois meses que estamos saindo!  Este último fim de semana, nós fomos para a serra. Com este frio, imagina como foi bom! Lareira, vinho... Um tapete tão alto, mas tão alto que dava para afundar as mãos! E os corpos, também... — acrescenta com malícia.
— Vocês estão dormindo juntos desde quando?
— Desde o segundo encontro — responde, indiferente.
É assim que me fala de sua intimidade, como se tudo fosse normal e esperado.
— Lá na serra, transamos o tempo todo! Pela manhã, à tarde e à noite, embaixo de um cobertor elétrico. Eu não deixei que ele percebesse, mas eu estava morrendo de medo daquilo me eletrocutar! Já imaginou morrer assim? Fazendo amor?
Não, não me imagino mais fazendo amor. É doloroso. Mas consigo imaginar a morte. E, por isso, surpreende-me que também Beatriz tenha pensado nela, dessemelhantes que somos. Temos a mesma idade, entretanto, nossas diferenças me envelhecem. Ela não caminha pelas noites insones, pelos dias sem viço, pela vida sem nuanças. Não tem medos, não descarta vontades, não se conforma com restos.
Quando se convidou para morar comigo, avisou, simplesmente: “A partir de amanhã venho morar aqui. Ando preocupada com essa sua cara de nada. De perto, cuido de você melhor”. Mas chegou naquela mesma noite, trazendo um champanha que me relaxou as fibras do corpo, como um instrumento que finalmente desentesa-se. E eu deixei que falasse, e falasse, e falasse, até que me veio um sono sem remédios.
Agora, preciso que Beatriz me deixe. Que me devolva o silêncio da casa e a escuridão da minha vida vazia. Porque começo a ter inveja dela. Inveja dos homens com quem sai e se deita, das flores que esparrama sem respeito pelos móveis, das suas gargalhadas que me inibem a tristeza, da sua pele sem mágoas que afronta os sulcos do meu rosto.
Eu lhe peço que se cale um pouco. Mas ela não se cala. Não tem pressentimentos. Obriga-me os ouvidos ao que não tive, não tenho. E ainda convida-me a viver! Tenta-me com lugares e pessoas que eu gostaria de rever, com ofertas que me parecem possíveis. E quase me alcança.
Por isso, hoje, eu vou matá-la.
Antes que ela alcance a porta, terei rasgado todos os papéis sobre a escrivaninha. E terei lançado fora as canetas, e desligado as máquinas às quais me reconduzo sempre a imaginar-lhe enredos e capítulos. Ela tentará implorar, como já fez de outras vezes em que se sentiu ameaçada. Vai usar dos artifícios que conheço para encher-me os olhos de lágrimas e comandar meus dedos novamente às folhas e ao teclado. Não cederei. Hoje, não. Hoje, cessarei Beatriz.
Depois que ela se for, vou sentar-me com o cão aos meus pés. E seguiremos desalterados em nossa morte.

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


3 comentários:

de tão bem (d)escrita, essa mulher enleou-se-me e quase me apeteceu dizer-lhe uma palavra ou outra...
mas a vida é assim mesmo: cada a um a sua - não tem como virar o destino de uma criatura e outra (ou tem e a gente apenas tem preguiça?!)

Não mata a Beatriz. Ela é tão legal!
Vou começar um abaixo-assinado: Salve a Beatriz!!

Como tudo seu que já li, este texto envolvente me conduziu para dentro da vida dessa surpreendente personagem. Jamais esperei que fosse essa a relação entre Beatriz e ela. Muito bom!

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