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quarta-feira, 17 de março de 2010

Cães

G. K. Chesterton

Cínicos geralmente falam dos decepcionantes efeitos da experiência, mas, graças a uma, descobri que quase todas as coisas não malignas são melhores na experiência do que na teoria. Pegue, por exemplo, a inovação que introduzi tardiamente em minha vida doméstica; ela é uma inovação com quatro patas na forma de um Terrier Escocês. Sempre me imaginei como um amante de todos os animais, porque nunca encontrei qualquer animal que definitivamente me desagradasse. A maioria das pessoas traça o limite em algum lugar. Lorde Roberts não gostava de gatos; a melhor mulher que conheço tem objeções a aranhas; um teosofista que conheço protege, mas detesta, ratos; e muitos importantes humanitários tem uma objeção a seres humanos.
Se o cão é amado, ele é amado como um cão; não como um compatriota, ou como um ídolo, como um mascote, ou como um produto da evolução. A partir do momento em que você é responsável por um estimado animal, naquele momento abre-se um abismo tão vasto quanto o mundo entre crueldade e a coerção necessária de animais. Há algumas pessoas que falam daquilo que chamam de “punição corporal”, e classificam sob este título a tortura medonha infligida a cidadãos desafortunados em nossas prisões e fábricas, e também ao peteleco que alguém dá a um menino travesso, ou à chicotada num terrier intolerável. Você até pode inventar uma expressão chamada “concussão recíproca” e deixá-la para entender que você inclui sob este título beijar, chutar, a colisão de barcos no mar, o abraço de jovens alemães e o encontro de cometas no espaço.
Este é o segundo valor moral da coisa; a partir do momento em que você tem um animal sob seus cuidados, logo você descobre o que é de fato crueldade para os animais, e o que é apenas gentileza. Por exemplo, algumas pessoas chamaram-me de inconsistente por ser um anti-vivisseccionista e, mesmo assim, apoiar esportes comuns. E apenas posso dizer que eu até me imagino dando um tiro em meu cachorro, mas que eu não me imagino vivisseccionando-o.
Mas há algo mais profundo no assunto do que tudo isto, mas já é tarde da noite, e tanto o cão quanto eu estamos sonolentos demais para interpretá-lo. Ele está deitado diante de mim, aconchegado diante do fogo, assim como muitos cachorros devem ter se deitado diante de muitos fogos. Eu estou sentado ao lado da lareira, assim como muitos homens devem ter se sentado ao lado de várias lareiras. De algum modo, esta criatura completou a minha humanidade; de algum modo, não consigo explicar o porquê, um homem precisa ter um cachorro. Um homem precisa ter seis pernas; aquelas outras quatro patas são partes dele. Nossa aliança é mais antiga do que as passageiras e pedantes explicações que são oferecidas sobre nós dois; antes de haver evolução, existíamos nós. Você pode encontrar escrito num livro que eu sou mero sobrevivente de um embate de macacos antropóides; e talvez eu seja. Estou certo que não tenho objeção. Mas meu cão sabe que sou um homem, e você não encontrará o significado desta palavra escrita em qualquer livro tão claramente quanto está escrita em minha alma.
Pode estar escrito em um livro que meu cachorro é um canino; e disto pode-se deduzir que ele deveria caçar com uma matilha, pois todos os caninos caçam com uma matilha. Portanto, pode-se argumentar (neste livro) que, se eu tenho um Terrier Escocês, eu preciso ter vinte e cinco Terriers Escoceses. Mas meu cão sabe que eu não lhe peço para caçar com uma matilha; ele sabe que eu não dou a mínima se ele é um canino ou não, enquanto ele for meu cachorro. Este é o segredo real do assunto que evolucionistas superficiais parecem não captar. Se a história conhecida for a prova, a civilização é muito mais antiga que a selvageria da evolução. O cão civilizado é mais antigo que o cão selvagem da ciência. O homem civilizado é muito mais primitivo que o homem da ciência. Sentimos em nossos ossos que somos primordiais, e que as visões da biologia são excêntricas e efêmeras. Os livros não importam; a noite está chegando e está escuro demais para ler livros. Contra a luz da lareira que se apaga, obscuramente pode-se traçar os contornos do homem pré-histórico e do cão.

(Este ensaio foi extraído de um artigo do Daily News, mais tarde reunido como “On Keeping a Dog” em Lunacy and Letters).

http://www.cse.dmu.ac.uk/~mward/gkc/books/dogs.html

***

Sobre o autor
Gilbert Keith Chesterton, conhecido como G. K. Chesterton, (Londres, 29 de maio de 1874 — Beaconsfield, 14 de junho de 1936) foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico.

Era o segundo de três irmãos. Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundários no colégio de São Paulo Hammersmith onde recebeu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carreira de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Escreveu no Daily News. Nascido de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Católica. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chesterton a quem conhecera pessoalmente.

Na sua introdução a "São Tomás de Aquino" deixou escrito:

"Assim como se pode considerar São Francisco o protótipo dos aspectos romanescos e emotivos da vida, assim Santo Tomás é o protótipo do seu aspecto racional, razão por que, em muitos aspectos, estes dois santos se completam. Um dos paradoxos da história é que cada geração é convertida pelo santo que se encontra mais em contradição com ela. E, assim como São Francisco se dirigia ao século XIX prosaico, assim São Tomás tem mensagem especial que dirigir à nossa geração um tanto inclinada a descrer do valor da razão."

Em uma de suas principais obras, "Ortodoxia", defende os valores cristãos contra os chamados valores modernos, a saber, o cientificismo reducionista e determinista. Dono de uma retórica exemplar, coloca em debate crítico idéias como as de Mark Twain e Nietzsche.

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1 comentários:

De fato, o homem precisa ter um cachorro. E precisa fazer isso consciente de que essa amizade, que é fonte de grande alegria, deve perdurar mesmo diante dos maiores problemas, pois além de não ser descartável, o cachorro, ao contrário de um celular obsoleto jogado fora, sofre quando é abandonado. "Eu queria ser tão bom quanto meu cachorro acha que eu sou" (não lembro quem foi o autor).

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