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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Quarta-feira de Cinzas


Cirilo S. Lemos













Até que a Terça da Folia do Clube Vicentino não era um programa tão ruim assim, afinal. Renato odiava o Carnaval, mas os beijos que a mulata fantasiada de coelhinha dava em seu pescoço compensavam o barulho, o tumulto, os marmanjos vestidos de mulher rodopiando orgulhosos pelo salão. E como compensavam.
Deslizou a mão pelas costas dela até sentir o rabinho de algodão no biquíni branco. Convidou-a para um lugar mais reservado. Ela sorriu e o arrastou pelo braço até o banheiro.  
            Não sabia o que uma mulher daquela vira num cara como ele, mas podia apostar sua coleção de Sandman – dez deliciosos volumes encadernados, capa dura, papel especial – que o fato de estar bêbada tinha algo a ver com isso. Ao diabo com as explicações, ele pensou, quando sentiu uma mão abrir seu zíper e se enfiar em sua calça.
            – Você tem camisinha aí? – sussurrou a coelhinha.
            – Tenho – respondeu Renato, o coração ao pulos. Arrancou a carteira do bolso, abriu-a atabalhoado: o pequeno envelope plástico de perfume levemente adocicado devia estar lá desde seus treze anos, mas ela não precisava saber disso.
            – Sabor morango. Adorei – ela riu ainda mais alto e tascou-lhe um beijo, a boca deliciosamente quente. Realmente quente. E era macia, úmida. Algo reagiu nas partes baixas. Renato agradeceu ao calor por dilatar seus vasos sanguíneos e aumentar o fluxo de sangue.
            – Está tão quente aqui... – a coelhinha gemeu, desgrudando-se do corpo de Renato. Engolia o ar em grandes bocados. – Quente demais.
            Renato esfregou a testa suada. A temperatura parecia mesmo estar subindo.
– O ar condicionado deve ter pifado. Oitocentas pessoas espremidas num lugar minúsculo e a direção do clube deixa o ar pifar. Depois reclamam quando são trocados pelo Clube Veneza – ele disse. Seu interesse, porém, era outro. Agarrou a coelhinha pela cintura e a puxou para si. Ela veio, mirando-o com olhos sanguíneos, e o enlaçou com um abraço vulcânico.   
            Renato tentou penetrá-la outra vez. Foi como enfiar o pênis numa churrasqueira.
            – Que isso – ele gritou, arrancando depressa a camisinha meio derretida.  
            A coelhinha cambaleou para trás, o suor formando uma nuvem de vapor ao seu redor.
            – Você está bem? – dava para sentir um cheiro leve de cabelo queimado. – Moça, pelo amor de Deus.
            A coelhinha desabou ao chão, e então irrompeu em chamas como se fosse um galão de álcool. Uma fogueira humana, agitando desesperadamente braços e pernas. A fumaça negra se espalhou pelo banheiro.
            Renato correu em busca de ajuda, tropeçando nos próprios pés, sem acreditar no que acabara de presenciar. Ao chegar ao salão, viu dezenas de foliões – homens, mulheres, crianças – transformados em incêndios ambulantes.
Entrou em pânico.
A gritaria terrível tornava impossível pensar direito. Mais e mais pessoas explodiam em chamas e se consumiam em instantes sem razão aparente. Renato correu para a saída, onde uma multidão apavorada se acotovelava na porta estreita tentando fugir. Um homem ao seu lado se transformou numa bola de fogo. Com os olhos ofuscados, Renato caiu e foi pisoteado. Levantou-se com esforço. Atravessou a porta misturado à floresta de braços coloridos, pernas envoltas em meias, troncos emplumados, cabecinhas de fadas, bailarinas e piratas. Chegou à rua.
– Ah, porra.
            Gente em chamas por toda parte, gente rolando pelo chão tentando extinguir o fogo que lhe devorava os corpos, gente se atirando de prédios ou na frente de automóveis para fazer a dor passar, gente sem saber o que fazer ou aonde ir, como ele.
            Correu para o estacionamento, sem coragem de olhar para os clarões repentinos que surgiam ao seu redor. Alcançou seu carro. Enfiou a chave na ignição. Pessoas em chamas cercaram-no implorando por ajuda, tentando abrir as portas, socando os vidros. Renato viu um homem se jogar contra o pára-brisas, o fogo torrando-lhe a pele. Estremeceu. Ia ter de atropelar aquelas pessoas para poder sair com o carro. Não teria coragem de fazer uma coisa dessas. Mas tinha de ir para casa, saber se o pai estava bem. Abriu a porta do carro com um chute, derrubou um dos infelizes e correu para longe dali.
            Como ir para casa? Em qualquer direção que olhasse, via dúzias de piras incandescentes alucinadas. Os urros vinham de toda parte e se misturavam às buzinas, sirenes, choros, latidos, marchinhas abandonadas de Carnaval.
            Ali perto, diante de uma cruz vermelha de vários metros, um pastor berrava ao microfone sobre o Fim dos Tempos e a Destruição dos Pecadores. Louvava ao Senhor por trazer sua Justa Punição e seu Fogo Purificador no último dia da celebração hedonista da carne. Fiéis endossavam as palavras do pastor com gritos de aleluia e braços erguidos. Era uma igreja grande e próspera. Homens de terno impediam que as pessoas assustadas buscassem abrigo dentro dela.
A multidão apedrejava as portas de vidro e forçava a entrada. Os homens de terno – seguranças, na verdade – ameaçavam atirar nas pessoas para afastá-las. No fim, dava no mesmo estar dentro ou fora: fiéis e infiéis, todos começaram a queimar um a um. Renato não viu quando o pastor se tornou uma bola de fogo clamando pelo espírito santo: correra ao ouvir os tiros, perguntando se Deus tinha algo com aquela loucura toda, e quase foi atropelado por um ônibus em chamas ao atravessar a rua.
Entrou num beco entre dois prédios altos. O cheiro enjoativo de carne queimada se misturava ao ranço dos sem-teto encolhidos de medo. Pilhas de cinzas fumegantes se espalhavam por toda parte. Renato sentiu o estômago se contrair. Vomitou.
            – Coisa estranha, né? – disse um mendigo. Encharcava o corpo com uma garrafa de coca-cola cheia de urina.
            Renato não respondeu. Continuava vomitando.
            – Vou deixar o corpo bem molhado para me proteger do fogo. O mundo inteiro tá assim, meu chapa, a porra do mundo todo. E sabe por quê? A radiação ultravioleta. Tem um vírus nela. Não se pode brincar com o planeta, garoto. Ele tem pais vingativos.
            – Besteira – grunhiu Renato, um gosto azedo na boca. Cambaleou para longe dali.
            – Que explicação você tem? – ainda ouviu o mendigo perguntar.
            Avenidas, condomínios, favelas, ruas, praças, edifícios, casas, bares, carros, bordéis. Em todos os lugares as pessoas – e somente elas – queimavam até a morte. Haveria explicações para isso?
A televisão e o rádio instavam a população a não sair de suas casas. Autoridades apareciam falando e falando. Precisavam mostrar ao povo que ainda havia alguma ordem no país, apesar de tudo. Mas não havia. Militares e políticos também queimavam, e o próprio presidente se transformara numa labareda duas horas antes. Nada de ordem ou hierarquia, apenas um colossal incêndio humano.
Renato seguiu pelas ruas em busca de um jeito de ligar para o pai. Todos os telefones que encontrava pelo caminho estavam mudos. Ao longe, ainda dava para ouvir o eco mórbido de pessoas explodindo em chamas. Mas o silêncio se tornava cada vez mais presente. A cidade esvaziava.
            Parou no meio de uma ponte, onde um pequeno grupo de pessoas saltava e desaparecia nas águas escuras do rio. Renato se perguntou se teria coragem para uma atitude dessas. A idéia de morrer afogado lhe parecia ainda mais aterradora que morrer queimado.
            Uma fuligem gordurosa começara a cair sobre a cidade. Quanta gente precisava ser carbonizada para se produzir aquela quantidade de neve morta?
            – O fim do mundo – ele suspirou, observando o fogo que agora se espalhava também pelos prédios. – Não há graça nisso.
Um velho subiu no parapeito da ponte. O último dos suicidas. Com um sorriso triste, saltou e foi engolido pelo rio. Renato ficou observando as bolhas na superfície da água. Nas primeiras horas da quarta-feira de cinzas, se viu só. 

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5 comentários:

Bem bom! Muito gráfico, muito exaustivo na ambientação, sem explicações.

Ótimo conto, Cirilo!
Nem tem defeito para colocar...
Abraço!

Adorei a ideia do conto, Cirilo! Muito bem escrito, não perde o fio num momento sequer!

Abraço

Joaquim, Matheus, Ramiro: fico feliz que tenham gostado. Obrigado.

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