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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Fissuras íntimas

Léo Borges

Necessária e suficiente. Pensava no que Verônica havia significado enquanto admirava o mar, tão precioso para mim quanto o que ela fora. Ainda que da clarabóia quebrada do corredor do edifício eu só conseguisse enxergar uma pequena parte da praia, aquela visão criava vibrações gostosas, conforto que eu precisava e que me bastava. Percebia a água oscilando ao longe, desafiando a inércia do céu e a estagnação dos sentimentos. Mas aquilo me deixava intrigado: como o mar poderia ser tão alegre se tudo ao redor era quietude?

Naquele período de convalescença física e emocional essa brecha marota era meu refúgio visual, segredo íntimo criado por alguém que, sem saber, provou gostar muito de mim. Como das janelas do meu apartamento só era possível visualizar o emaranhado de sacadas interpostas, salpicadas por condicionadores de ar, por ali eu podia contemplar algum azul e ainda ter acesso à brisa fresca que driblava os labirintos de concreto de Copacabana. Enquanto as rachaduras não fossem sanadas – vidro, fêmur e coração – meus instantes de contemplação através daquele oráculo ainda teriam boa sobrevida.

Era interessante como a paisagem praiana ganhava contornos distintos, variando conforme o estado de espírito de cada admirador. Mas sob qualquer desses ângulos sua fidelidade era integral. No sereno da noite eu, vez por outra, percebia vultos solitários perambulando pela areia fria, talvez tentando se livrar de lembranças tristes como a minha, feridas que eram suturadas pela parceria entre a lua e seu brilho prateado no mar. E aquele mesmo mar era também o confidente dos casais enamorados que desfilavam molhando seus pés enquanto juravam um amor eterno sabidamente impossível.

Impossível? O sol matinal vinha me desmentir. Sua força majestosa me fazia crer que a felicidade não está na continuidade e sim nos ciclos, nas intermitências, como uma noite gélida que num truque honesto se transforma num amanhecer dourado. Notei que aquela vista estava agora muito mais real, distante de um sonho apaixonado. Resolvi contrariar a sugestão médica de repouso e decidi que iria abastecer meu corpo com a energia litorânea. No elevador sóbrio encontrei no espelho um homem compreensivo com sua angústia, disposto a buscar novos portos onde alguma alegria pudesse estar ancorada.

A praia é um caso raro de amor perfeito, sem engano, diferente dos nossos, que são meramente imprevisíveis. Nestes, a traição caminha próxima às declarações de amor infinito, as mesmas cujo inocente mar é cúmplice todas as noites. Verônica confirmou essa teoria. Num blefe ocasional de verão, furtivo como uma miragem na areia, acreditou que nada seria percebido e que tudo continuaria como sempre foi. Bem que Helena, amiga e vizinha do oitocentos e dois, alertara num argumento que, se não era de ciúme, margeava o interesse: “não entre nessa com tudo”. Uma pena que nos relacionamentos o nada e o tudo sejam tão semelhantes, como o sempre e o nunca e suas extremidades incoerentes.

De fato, Verônica agiu com a incoerência que é pertinente a nós, seres racionais. Atitude avulsa que para ela foi necessária e para mim o bastante; premissa nefasta, mas não menos lógica que meu flerte com a praia e seus atributos singulares. Se essa incoerência era universal, o sofrimento resultante era só meu, legítimo!

Passando pela portaria, cumprimentei o seu Belarmino, que comentou sobre o dia límpido. Por pouco não sugeriu um mergulho, sem levar em conta minha perna direita fartamente envolta por material imobilizador.

- Acho que vou entrar na água assim mesmo. O mar pra mim é um apoio melhor que essa muleta – rimos enquanto eu fazia graça com o objeto.

- Léo, sabe aquela clarabóia quebrada lá do seu andar? Pois é, vai ser consertada semana que vem. O novo síndico chegou querendo mostrar serviço, não é uma boa notícia?

Balancei a cabeça positivamente com um semblante opaco. Coisa covarde e traiçoeira essa benfeitoria! Sem aquele buraco feito por algum mestre visionário eu estaria fadado a sentir apenas a claridade disforme do sol e os ruídos dos carros, tão afoitos quanto indiferentes. Será que os condôminos não entendiam que mofo e infiltração eram, na verdade, prejuízos menores que a clausura e a solidão? A vida é isso, mera inversão de valores, e eu reclamando que meu egoísmo estava sendo violado.

Mas, nem a violência urbana inibia a opulência da Siqueira Campos, que pulsava sua vocação cosmopolita, típica de Princesinha do Mar, com um sem número de pessoas desfilando a elegância que o bairro exige. A perna tentou doer quando atravessei a Avenida Atlântica, mas a eloqüência do cenário já suprimia qualquer sensação lúgubre. Aliviado, pude vislumbrar de perto o mosaico multicor sobre a areia disputando a cena com o gigante anil que servia como pátio para os surfistas sangrarem suas ondas.

Por certo um banho ali finalizaria todas as dores. Entretanto, o que me restava era invejar a ave caçadora flechando o horizonte. Aqueles seres tinham não só uma visão panorâmica do paraíso como sabiam usufruí-lo com grande sagacidade. Agilidade e beleza presentes também em Helena que, de súbito, surgiu fagueira por trás de um quiosque. Num diálogo frugal sua voz doce acabou contando uma novidade inesperada, a revelação do segredo que se tornaria nosso código de união.

- E não é que o novo síndico disse que eu vou ter que ressarcir a clarabóia lá do nosso andar? Aquela que quebrei no maior descuido com meu guarda-sol...

A confissão gerou risos incontidos e evidenciou desejos claros como a manhã naquela praia. Praia em que fui procurar acalanto, mas que foi onde encontrei recomeço.

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