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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Brasileiros no exterior: patuscada no Carnegie Hall


Henry Alfred Bugalho

O brasileiro no exterior se torna um patriota. Mesmo que tenha deixado o país por haver amargado anos de desemprego, ou por medo da violência, ou por vergonha dos políticos, basta um ano morando fora para se criar uma visão fictícia do país. Esquece-se de todas as mazelas e o Brasil torna-se uma Shangri-la.

Esta nostalgia impele os brasileiros a perseguirem fanaticamente tudo que possui alguma relação com o Brasil: restaurantes, casas noturnas, mercadinhos e, principalmente, a vinda de algum artista famoso.

Assistir a algum show dum artista brasileiro é a justificação da existência dos brasileiros no exterior, a oportunidade para matar a saudade do que nunca se teve.
Recentemente, tive a oportunidade de presenciar uma destas agremiações.

A etiqueta da música erudita

Não é preciso ser nenhum gênio para se perceber, logo na primeira experiência com a música erudita, que há uma etiqueta diferente na hora de se apreciar um concerto. Via de regra, não se aplaude entre os movimentos duma peça musical — apenas no final —, nada de assovios, gritos (excetuando os Bravo! Bravo!) ou demais arroubos de comportamento característicos dos eventos populares.

A música erudita foi consagrada pela aristocracia e burguesia européias em contraposição às manifestações da praça pública. Por isto, a reação também deve ser oposta, ao invés do carnaval dionisíaco, a platéia dum concerto é uma mera espectadora, ela vai ao teatro para apreciar, não para fazer parte da apresentação.

A Atração

Em maio, o Carnegie Hall recebeu uma atração muito especial: após uma década, João Carlos Martins voltava a se apresentar no mais celebrado teatro do mundo.

João Carlos Martins já era uma figurinha carimbada do cenário da música erudita há muito tempo. Considerado um dos maiores intérpretes de Bach, a carreira do pianista foi brilhante, até que os contratempos da vida a encerraram. Primeiro, João Carlos Martins perdeu o movimento duma das mãos, ao se machucar jogando futebol no Central Park; recuperou-se, voltou a tocar no auge de sua forma; mas outro acidente, desta vez durante um assalto na Bulgária, o fez perder novamente o movimento na mão. Isto não o impediu de terminar o seu projeto de vida — a gravação da obra completa de Bach para teclado. Quando sua outra mão também ficou lesionada pelo esforço, João foi obrigado a abandonar o piano.

No entanto, este não é o fim da história. Foi justamente neste momento em que João Carlos Martins passou a ser conhecido pelo público brasileiro. A sua história de superação se tornou um ideal, um exemplo, e seu retorno, posteriormente, como regente, foi um novo apogeu.

Agora, não como pianista, mas como maestro, João Carlos Martins se apresentaria no Carnegie Hall.

A Platéia

Dada a sua reputação internacional como concertista, imaginei que o público se comporia, principalmente, de americanos. Mas logo na fila de entrada, já se ouvia português por todos os lados. Obviamente, o show seria dado para (e pelos) brazucas.

Acontece que, algumas semanas antes, João Carlos Martins havia estado no programa do Faustão e mencionara seu concerto em Nova York. Assim, talvez pela primeira vez na História, o Carnegie Hall estava abarrotado de pessoas que só haviam ouvido Beethoven no auto-falante do caminhão de gás e Mozart no comercial do desodorante Vinólia. Talvez o preço da entrada — dois dólares — tenha sido um agravante.

Este fato era o suficiente para antecipar o óbvio — aplausos na hora errada, gente indo embora antes do fim, sessão de fotografia coletiva entre as poltronas, o que levava as funcionárias do teatro ao desespero, na tentativa de se fazer vale a advertência enorme de “No Photos” projetada sobre o palco —, mas nada nos poderia preparar para o menos óbvio, como um celular tocando no meio da interpretação dum Piazzola, ou como toda a platéia se levantando, mão sobre o coração, chorando, enquanto João Carlos Martins regia um arranjo do hino nacional e alguém, nos balcões superiores, balançava uma bandeira do Brasil!

Os poucos não-brasileiros na platéia observavam tudo estarrecidos, sem compreender bulhufas daquele carnaval.

Além disto, uma das principais atrações era uma rápida corrida às primeiras filas para a bajulação obrigatória do global Marcos Frotas, que havia vindo prestigiar o concerto do amigo.

Numa única noite, os brasileiros haviam conseguido quebrar todas as regras de etiqueta dum concerto de música erudita. E com grande estilo, pois não é todo dia que se pode usar o Carnegie Hall pra isto.

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2 comentários:

O brasileiro é assim mesmo, nem adianta esperar por algo diferente. E o pior é que se orgulham da falta de educação. Tenho um colega que dizia que não me escrevia e-mails porque "escreve pouco e ruim". Fico imaginando o que ele entende por escrever "muito e bom"

Olá,

O brasileiro é pura emoção mesmo, e por isso, às vezes se deixa levar pelo impulso...

Ficamos felizes que você tenha apreciado o concerto.
Parabéns pelo post!

Assim que puder visite também o fotoblog do Maestro.

http://amusicavenceu.fotoblog.uol.com.br

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