Desvelamento



(Ao som de We Die Alone, de Lamb of God)


Tontura nos olhos. Pressão na fronte. Lentamente, os passos são vencidos. Segue em frente, não possui destino; não possui mais. Sofre como flecha lançada sem vontade.

Com chinelos poeirentos, arrasta pedras e galhos pela noite de sombras. O silêncio é quebrado pela fraqueza do andar. Entre a trilha e a mata, o suor da caminhada ofegante.

Sobre a pele, fiapos de pano. A brisa gelada entrando devagar. O arrepio da pele pela lembrança do sereno.

A roupa corroída não cobre a vergonha. A pele à mostra expele dor. Tingido de sangue, o vestido desfeito seca lentamente.

As flores da estampa gritam e choram. Escorrem pétalas através do tecido desmanchado. O vento dança no traje domingueiro.

Sofre a que não será mulher. Sofre a menina humilhada, segurando uma boneca sem sexo. Apenas uma menina que caminha entre a trilha e a mata. Ofegante.

Ouvindo os ruídos das sombras na estrada, tenta esquecer o pavor das presas na carne. Tenra carne de menina que atrai feras. Uma após outra, sobre ervas e papoulas, rasgando a carne da menina. A carne.
Jogada no chão. Lambida na face. Mordida na pele. Sangrada na inocência do sexo.

Cães, cobertos por feridas, saciados. Bestas, em pus, cobriram a fêmea que colhia flores. A fuga somente nos dedos entrando na terra escura.

A menina caminha sabendo a pureza perdida e a inocência pingando sobre os pés.



Homero Gomes

Comentários

  1. Excelente conto sobre a trágica perda da inocência. Amei o uso da implicatura.
    Muito bom, Homero Gomes.
    Te convido a conhecer meu trabalho no blog: www.avessasingularidade.blogspot.com.br
    Abraço
    Adriane Bueno

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